A.G. Howard. O Lado mais Sombrio. Editora Novo Conceito,2014.
O livro O Lado mais Sombrio de A.
G. Howard, se passa nos dias atuais, é uma espécie de releitura da história de
Alice no País das Maravilhas, e que apesar de manter o mesmo cerne fantasioso
do livro original, possui um tom muito mais sombrio e caótico, que prendem
bastante a atenção de leitores de fantasia, aventura e horror. Apesar de
inicialmente parecer destinado ao público juvenil, o enredo da autora mostra
uma leitura capaz de captar atenção e o prestígio tanto de jovens quanto de
adultos.
A narrativa conta a história da
Alyssa, uma jovem no auge dos seus 16, 17 anos, que inicialmente é retratada
como uma descendente direta da Alice Liddell, sendo sua tataraneta. Narrado em
1º pessoa, com a própria Alyssa nos mostrando suas aventuras, tanto no mundo
atual quanto no país das maravilhas, que está mais louco e bagunçado depois da
visita da Alice. O livro emerge na história original trazendo um toque de
modernidade, heroísmo feminino e também, é claro de romance, que não poderia
faltar, mas também com bastante fantasia e um leve toque de horror como citado
anteriormente.
Alyssa, Jeb (seu melhor amigo) e
Morfeu (um intraterreno- como são chamados os seres do país das maravilhas),
traçam um longo caminho, cheio de desafios para conseguir derrotar a Rainha Grenadine,
que assumiu o trono da rainha Vermelha, sua meia irmã, depois de uma suposta
traição conjunta com o Rei Vermelho.
É importante frisar também, sem
dar spoilers obviamente, que Alyssa e Jeb só foram parar no país das
maravilhas, porque a Alyssa pretende salvar sua mãe do manicômio, pois as
mulheres da sua geração sofrem do que se acreditava ser uma terrível maldição
herdada por conta da Alice e que faz com que suas descendentes fiquem “loucas”
por assim dizer, em algum momento da vida. A mãe de Alyssa, já diagnosticada
com essa espécie de “demência”, foi internada em uma clínica para pessoas com
problemas mentais e está prestes a receber tratamento de choque como último
método para tentar melhorá-la. Alyssa, no entanto sabe que sua mãe não é louca
e está sob o efeito dessa “maldição” (como interpretada nos capítulos iniciais)
da sua família que atinge apenas as mulheres, e que também já começou a atingir
a própria Alyssa.
Essa maldição consiste em
basicamente, ver e ouvir entre outras coisas, os seres intraterrenos, que para
os humanos que não têm essa “maldição/dom” simplesmente não existem, ou são
coisas apenas criadas pela imaginação do Lewis Carroll, durante a escrita do
seu livro original. Partindo deste pressuposto, para salvar a sua mãe de um
destino trágico, Alyssa emerge no país das maravilhas, junto Jeb e com o
Morfeu, que já havia orquestrado essa ida para o mundo dos intraterrenos desde
muito antes dela imaginar, e ela precisa passar por alguns desafios, para
consertar as coisas que Alice bagunçou no País das Maravilhas e só então conseguirá
voltar para casa junto com o Jeb e curar a sua mãe.
Esses desafios consistem
basicamente em consertar tudo o que a Alice deixou bagunçado e que prejudicou
completamente a vida dos seres intraterrenos. Uma coisa muito interessante
desse livro é que você vai se deparar com os vários personagens do Lewis
Carroll, mais de uma forma totalmente diferente e até bem macabra. A descrição
do Coelho Branco, por exemplo, que foi o primeiro intraterreno que Alyssa e Jebediah
se depararam logo quando caíram na toca do coelho, é capaz de causar arrepios,
porque a descrição dele remete muito a uma criatura digna de bons filmes de
terror e quando se imagina, as figuras podem até tomar proporções maiores e
mais aterrorizantes.
O Coelho Branco, que na verdade
no livro de A. G. Howard é chamado de Rábido Branco, na nossa tradução para o
Português, é uma criatura cadavérica e sombria, além de muito misteriosa. Outros
personagens, como o Chapeleiro Maluco (Herman Chapelão) e Humpty Dumpty (Humphrey)
também aparecem no enredo, com os seus nomes modificados, mas sempre se
referindo aos personagens originais, e com aparências mais macabra e digamos
que desconfortáveis de se imaginar. Todas essas criaturas fazem parte dos
desafios que Alyssa tem que enfrentar e surgem por etapas, ao longo da
narrativa e vão construindo o roteiro da nossa heroína.
Ao longo do enredo, vai-se
descobrindo que a própria Alyssa também é uma hibrida (meio humana e meio
intraterrena) e seu corpo vai se modificando ao longo do tempo que ela passa no
País das Maravilhas. Seu rosto modifica, aparecem asas e coisas que afetam
somente os intraterrenos começam a afetá-la também e assim a nossa protagonista
vai percebendo que ela tem uma ligação muito maior com aquele local do que
simplesmente ser uma descendente da Alice. E de fato, nossa heroína descobre ao
longo das suas desventuras que não é descendente da Alice, mas de uma outra
personagem muito importante que é citada ao longo de toda a história.
Essa descoberta responde inúmeras
perguntas que surgem ao longo do roteiro e que perturbam não somente a nossa
personagem principal, mas também que instigam bastante ao leitor. Ela acaba
descobrindo as reais intenções do Morfeu principalmente em relação ao seu
próprio futuro, e começa a ter uma real dimensão do poder que ela possui.
Os últimos quatro capítulos do
primeiro livro desta saga são deveras esclarecedores dos capítulos anteriores,
além de acomodarem toda a reviravolta da narrativa. Cada certeza dos capítulos
anteriores é posta em check e têm os seus verdadeiros significados revelados,
prendendo o leitor até a sua última página. Como não sou de dar spoilers,
tentei ocultar ao máximo informações que são melhores serem descobertas através
da leitura, do que simplesmente contadas aos quatro ventos, mas devo registra
que vale muito a pena a leitura deste livro e, para os amantes de histórias
continuadas, além do primeiro volume O Lado mais Sombrio, temos as suas
continuações: Atrás do Espelho; Qualquer Outro Lugar e Sussurros do País das
Maravilhas que é um livro de contos. Aos interessados nessa maravilhosa
história, desejo uma boa leitura.

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